2.9.08

Toda noite esqueço

e todo o dia esqueço a noite


Toda noite lembro o que aconteceu no dia. Todo dia lembro o que aconteceu na noite. Como uma roda viva a rotina vai girando os segundos das segundas-feiras, terças-feiras, quartas-feiras, quintas-feiras, sextas-feiras. Durante a semana temos que sempre responder frases que terminam com um ponto de interrogação. Por que você não terminou isso ainda? Por que está cara de bunda mole? O que que deu com ocê, dormiu com a bunda destapada? Quando você vai vir me visitar meu filho? O que a gente vai almoçar hoje? O que se acha disso? Por que sempre tem que ter um ponto de interrogação no final?

No final de semana era diferente. Não existiam pontos de interrogação. Não existia nada. Só a solidão de seu quarto. Saia poucas vezes nos finais de semana. Já era um tédio ter que ir todo o dia trabalhar, todo dia se amontoando no ônibus na ida e na volta. Todo dia comendo junto com um monte de pessoas que mais parecem maquinas e não humanos. Todo dia barulho de teclas de computador, de telefone, de conversas que não dizem nada. Final de semana era diferente. Final de semana era paz na sua própria Bagdá, no seu próprio mundo. Era como se não existisse, como se fosse um lugar nenhum.

Se fosse sair gostava de sair na noite. Não para as festas. Saia para caminhar. Caminhar para esquecer. Caminhar para pensar. Ou simplesmente caminhar e sentir o ar noturno. A neblina. Somente as estrelas por o acompanhar, e as vezes alguns bêbados que ficavam caídos pelo caminho. Mas naquele final de semana ele resolverá sair. Resolverá deixar seu reduto para mais uma vez enfileirar-se e aglomerar-se no meio das pessoas. Saíra pela insistência de uns olhos que não conseguia deixar de imaginar e de pensar. Ela o cativará pelo olhar, pelo gesto simples de menina moleca, menina palhaça. Toda noite lembrava dos olhos dela. Todo dia lembrava os olhos dela.

Ela o convidou e ele saio. Deixar sua rotina de final de semana era algo impressionante para ele, não sabia dizer a quanto tempo fora a última vez que resolveu sair de casa num domingo de tarde. Ao pisar fora de casa, viu o sol a pino, em poucos passos sentiu o calor e as roupas grudando no corpo. Chegou no lugar combinado e esperou. Sua vida sempre tinha sido de espera, pensou ele. Sempre chegava cedo em todos os compromisso. Sempre chegava cedo no trabalho. Sempre chegou cedo nas aulas. Sempre chegou cedo quando ia no cinema ou no teatro. Sempre chegará cedo em todos os lugares que ia. Chegou cedo e esperou. Os minutos embaixo daquele sol faziam a espera se tornar mais dolorosa no sagrado domingo dele. Mas resistiu a tentação de pegar o ônibus de volta para casa, ficou e esperou. Esperou 10 minutos. Esperou 30 minutos. Esperou 40 minutos e nada dela aparecer. Sua roupa estava encharcada de suor, seu corpo estava ardendo por causa do sol. As pessoas em sua volta falavam alto, gritavam, cantavam, o pipoqueiro gritava ao seu lado. Ninguém respeitava seu silêncio.

Cansou de esperar e foi embora. De noite deitado pensou por que toda noite lembrava o que acontecia de dia, e por que todo dia se lembrava do que acontecerá na noite. Por que caminhando esquecia, gostaria que fosse ao contrário se caminhando fosse ele esquecido pelas pessoas. Deixou os pensamentos andarem livres por sua mente e esperou mais uma vez o sono chegar. Se perguntando por que no final das frases sempre existem ponto de interrogação.



Elisandro Rodrigues

Final de Agosto – Início de Setembro de 2008.

2 comentários:

Ana Rocha disse...

Esse moço que brinca
de lagrima. de rima
que olha no fundo
d' alma da menina.
Ele sabe!

Elefante Colorido disse...

amei o desenho do sonho e roubei. junto com teu coração

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento