15.9.08

Bailarina de arames


Estava cansada. Seu corpo todo doía. Dor de cansaço físico mas também de prazer. Aos poucos de fragmentos em fragmentos ia se reconstruindo. Sua vida andava agitada, uma correria sem tamanho e dimensão. Mal tinha tempo para arrumar suas coisas. Parece que o furacão que era ela mesmo tinha passado sem perceber por sua própria vida. Estava cansada porém feliz.

No computador imagens do final de semana. Fotos de rostos pintados – boneca de pano, palhaços, mendigos – fotos do makin off das gravações que participará. Ao lado de sua cama um buque de flores do campo. Pendurado no teto junto com as girafas voadoras uma bailarina emaranhada de fios, uma bailarina de arames entortados. No pé uma estrela. Parecia que a escultura voava sob os céus. Final de semana perfeito anotava ela em seu diário mental, anotava em suas recordações e lembranças.

Nem precisava anotar muito, ficará gravado em seu corpo todos os prazeres e recordações. Como um mapa sabia cada caminho ao que ele levava. Fazia quinze dias que o conhecia e foram os dias mais felizes e alegres até aquele momento de sua vida. Não sabia onde estes caminhos, este rio que era o menino, a levariam mas rezava a todos os deuses e deusas para que as estradas nunca acabassem, rogava que as águas deste rio continuassem a correr ora devagar, ora com correntezas fortes sempre levando em frente.

Dormiu com um sorriso no rosto, sorriso que ultimamente estampava seu rosto todos os dias.


Elisandro Rodrigues

15 de setembro de 2008.

Um comentário:

Ana Rocha disse...

Essa bailarina, meio móbile, meio sonho.
é a representação do meu eu, nele.
da minha vontade, nele.
ele me olha, me sente, me vê.
sabe tudo o que eu vejo e sinto.
e eu vejo a sombra da bailarina na parede,
refletindo lembranças e cheiros..

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento