30.1.09

Carta 2: Intempestivo


Para você ver minha cara Pirilampa, segui a risca o tratamento, depois da noite de ontem me acordei muito mais animado para o mundo. Esse método, podemos dizer que até alternativo, é eficaz. Acredito que se continuar assim, com esse tratamento pelos próximos 50 anos, ficarei cada dia mais feliz e saudável. Gostaria de te dizer que fiquei com seu cheiro, ele é embriagante, dormi sentindo você. Vou te confessar que só o que me interessa é a lógica do vento intempestivo, sendo assim segue algumas partes da Nau do Tempo-Rei, de Peter Pál Pelbart, que hoje pela manhã me fez recordar você.

Felicíssimo pela companhia.

“Então, não bastaria dizer que o invisível plana sobre as coisas como uma espécie de incorporai, tal como o acontecimento, mas que ele atravessa as coisas com essa textura ou nervadura virtual que, uma vez atualizada, as redistribui, provocando nelas desmembramentos, decomposições, recomposições, bifurcações, novas processualidades, derivações, universos, inéditos.

...É preciso conseguir ruminar incessantemente a própria historinha pessoal para poder inventar um novo devir...

...é preciso dizer também que não se trata de descobrir nossa identidade através desse visível que é a nossa história, já que a história não diz o que somos, mas aquilo de que estamos em vias de diferir. Diferir dela não para descobrir o que se é, mas para experimentar o que se pode ser...”

Elisandro Rodrigues

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Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento