14.11.08

Vento Estelar


Algumas coisas acontecem sem pedirmos. Geralmente estas coisas são boas, mas que vem e vão que nem um trovão. Algumas coisas que acontecem são estranhas e esquisitas. Vou lhes contar uma que ouvi dia destes, uma história estranha, esquisita, mas interessante, vocês podem já ter escutado algo semelhante, pois contos, mitos e lendas são todos escritos e contados com a mesma lógica. Esta estória aconteceu há muito tempo atrás, em séculos passados onde ainda existia magia no ar, onde os mundos da realidade e da imaginação eram um só. E por incrível que parece, esta estória acontece neste exato momento. Neste momento em que você lê este texto, neste momento onde diversas pessoas estão tomando café espalhadas pelo mundo, ou conversando com um amigo ou amiga. Acontece no momento onde as pessoas pensam no que vão fazer de suas vidas. Acontece no momento em que alguém olha para o céu ou sente um arrepio frio no corpo.

No mundo antigo, onde as realidades eram uma só e todos viviam, na medida do possível, respeitando ambos os mundos e vivendo pacificamente em ambos, todos os seres de magia, fantasia, reais ou não eram dotados da capacidade de se comunicar e de sentir. Cães falavam com duendes que falavam com ursos que falavam com fadas que falavam com árvores que falavam com bruxas que falavam com raposas que falavam com trigo que falavam com pássaros que falavam com água que falavam com seres humanos. Todo mundo se comunicava. Alguns tinham línguas que poucos entendiam, como era o caso dos elfos ou fadas, quando queriam discutir um assunto que era de interesse somente deles.

Neste universo, neste mundo os amores também aconteciam entre todos os seres, muitos não se concretizando pelo fato de serem muito diferentes, mas acontecia casos de raposas apaixonarem-se por cobras, ou de humanos apaixonarem-se por árvores. Muitas vezes era impossível um amor desses dar certo, mas os casos existiam, assim como este que vou lhes relatar: O amor de dois seres completamente diferentes, um feito de ar e outro feito de um corpo luminoso. Sim esta é a estória de uma paixão do Vento por uma Estrela.

Dizem que esta estrela era a mais bonita e mais brilhante do céu, pesquisando, neste tempo onde achamos tudo na internet descobri que a estrela mais brilhante era chamada de “Alfa Centauri estrela mais brilhante da constelação de Centauro, e também a mais próxima do nosso Sol, estando a uma distância de aproximadamente 4,3 anos-luz da Terra. Esta estrela é, na verdade, um sistema triplo, no qual a Alfa Centauri A é orbitada por Alfa Centauri B e Alfa Centauri C, também chamada de Próxima Centauri. (Wikipédia) - Próxima é uma anã vermelha variável, de tipo espectral M5.5Ve. Possui magnitude visual aparente média de +11,05 (variável) e magnitude visual absoluta de 15,49. É a estrela mais débil do sistema triplo Alfa Centauri. Suas coordenadas equatoriais são α = 14h39m36,1s e δ = -60°50'8,0". Sua distância ao Sol é de aproximadamente 4,2 anos-luz. É uma estrela atualmente ativa, como as estrelas eruptivas, caracterizada por linhas de emissão variáveis em seu espectro. Sua coloração é bastante avermelhada, devido à baixa temperatura de sua superfície, estimada em 2670 K.” (Wikipédia) é a

Mas isso não vem ao caso, já que naquele tempo a imagem que um tinha do outro era diferente, possibilitando assim a comunicação e o dialogo. Para o Vento, o ar em movimento, a Estrela se chamava Alin. Era bela, linda. Era pequenina, por mais de ser a estrela mais brilhante, ninguém podia imaginar que era pequenina. Seus olhos mudavam de cor conforme seu humor ou ou a luz do dia, variavam de um castanho claro para um esverdeado. Seus cabelos eram de um preto intenso e forte. Seu corpo pequeno detinham curvas preciosas. Sua pele era macia e branca. Vento, que respondia por diversos nomes, para Alin se chamava Iksoñe. Por ser da natureza do ar ele podia ter várias formas dependendo da situação, mas sua verdadeira forma era simples, o que encantou Alin no primeiro olhar. Iksoñe tinha um corpo frágil, não pequeno e nem tão grande, um de meia estatura, frágil, com um toque suave. Seus olhos eram verdes, seu cabelo castanho escuro, seus lábios pequenos, e na maioria das vezes estava com barba na cara. Assim era a figura humana destes dois seres, poucas as vezes se apresentavam assim, até por que tinham seus afazeres como Vento e Estrela, mas em poucas ocasiões, nas celebrações entre os mundos e realidades se apresentavam assim, e isso ocorria para comemorar a criação dos mundos e dos seres, era realizado a cada 100 anos.

Esta paixão que alimentava ambos era muito antiga, desde os primórdios dos tempos. Quando Alin surgiu no céu o Iksoñe foi o primeiro a se apresentar para ela, como uma suave brisa a envolveu e a abraçou fazendo com que ela brilhasse mais forte com seu vento. Um primeiro abraço que despertou uma paixão. O tempo corria nos seus dias e anos para os seres humanos, mas o tempo para eles era diferente, eles contavam os dias e meses a cada abraço dado e recebido, e isso no nosso calendário acontecia de seis em seis anos. Era quando Iksoñe subia até o alto dos céu e abraça Alin. Neste abraço se misturava ar e brilho causando um vento estelar. Cada abraço era a perda de um pouco de vida para Alin. Um abraço que durava uma eternidade para ambos, onde partilhavam suas vidas fazendo amor através de um abraço.

Paixão esquisita pois não sabiam onde havia iniciado, se fora no primeiro abraço, ou quando ambos se viram e se tocaram quando participaram da primeira celebração dos mundos juntos. Vento não esquecia aquele dia, quando vira a boniteza de Estrela. Ela estava vestida com um vestido de tecido leve, que na menor brisa balançava e espalhava luz por todos os cantos. Naquele eles se beijaram, antes de partirem para seus verdadeiros corpos, em um abraço que parecia não terminar, no fina dele Iksoñe tocou o rosto dela e aproximou seus lábios dos de Alin. Um beijo suave. Um beijo ardente. Um beijo de paixão. E assim acontecia a cada 100 anos. Faziam amor, se beijavam e se abraçavam. Por um dia eram completos um no outro.

Obviamente momentos tristes aconteciam. A tristeza tomava conta de ambos quando não se encontravam, a saudade era imensa contada em anos luz. Iksoñe sabia que um dia Alin iria morrer, que iria dar vida a outras estrelas e esperanças a outros corações. Ao contrário dela ele viveria até o fim dos tempos. Na verdade não se sabe muito sobre está história de amor, só que era diferente, bonita de uma certa forma.

Muitas estórias podiam ser contadas por mim para relatar o amor de ambos. Mas prefiro deixar a imaginação de vocês livres e pensar na boniteza desta paixão nada singular. Ou se quiserem saber mais, conversem com o vento quando ele passar por vocês ou perguntem as outras estrelas no céu, elas iram relatar muito mais do que um pobre e mal visto como eu.

Elisandro Rodrigues
(Imagem do Livro 'Um Pé de Vento' de André Neves - Por sinal leiam este livro muito bom)

Nenhum comentário:

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento