25.11.08

Sobre o início (ou memórias de um show)


“Ê nunca mais eu vi
Os oím do meu amor
Nunca mais eu vi
Os oím dela brilhar
Nunca mais eu vi
Os oím do meu amor
São dois jarrinho de flor
E todo mundo quer cheirar”

(Os Oim do meu amor – Cordel de Fogo Encantado)

Ele estava com o coração apertado, e ela também. Os dois estavam em silêncio dentro do carro. O barulho do pisca e o coração pulsavam na mesma intensidade, naquele silêncio se escutava os suspiros de uma última noite. Eles se encaminhavam para o Show do Cordel de Fogo Encantado. O silêncio era cortado por falas sobre como tinha sido o dia. Por mais difícil que parecia o silêncio acalentava os dois e os aproximava mais.

No show a cada música um beijo. A cada frase de impacto “vou pregar na parede um pedaço de céu que você me mandou...” “...eu vou cantar prá saudade com seu vestido vermelho e sua boca...aquele cheiro, som, imagem do teu corpo incendeia...”. A cada abraço os corações se juntavam mais e mais e no meio daquela multidão os dois que eram metade de um só se juntavam em um ficando um no todo e todo no um. A cada música tocada o fim se aproximava, a cada minuto que passava a ansiedade e a saudade aumentavam.

Na primeira despedida deles um suspiro e um silêncio entre nós, a multidão rezava em coro – mais um, mais um – e eles voltaram, e tivemos mais alguns minutos juntos “ai se sêsse” nos aproximou e confirmou que a espera e a saudade nos aproximaria mais, que o tempo da semeadura chegará ao fim e o início do processo do nascimento da flor no jardim dos nossos corações estava pronto. O solo receberá a semente, bastava cuidarmos dela para crescer e desabrochar a flor do amor e da paixão. E o show chegou ao fim, depois da segunda despedida deles no palco nos despedimos sem promessas, sem choro, mas com alegria. Com a certeza de que nos veremos e que o amor crescerá. Jogando corações e beijos corri ao lado do seu carro. E esse foi o fim do início e o início da boniteza do amor.

“Quando a flor tava dormindo, vento veio me levar
Prum terreiro iluminado, entre terra céu e mar
Já que o mundo ta girando, eu também quero girar”

Neste quarto de fogo solitário
No telhado um letreiro esfumaçado
Candeeiro no peito iluminado
O cigarro no dedo incendiário
O cinzeiro esperando o comentário
Da palavra carvão fogo de vela
Meus dois olhos pregados na janela
Vendo a hora ela entrar nessa cidade
Tô fumando o cigarro da saudade
E a fumaça escrevendo o nome dela
O prazer de quem tem saudade
é saudade todo dia
O prazer de quem tem saudade
é saudade todo dia
Ela é maltratadeira
Além de ser matadeira
ô saudade companheira
De quem não tem companhia
Eu vou casar com a saudade
Numa madrugada fria
Na saúde e na doença
Na tristeza e na alegria
Quando o sono não chegar
No mais distante lugar
No deserto beira mar
Dia e noite noite e dia

(Quando o sono não chegar – Cordel de Fogo Encantado)

Elisandro Rodrigues

Um comentário:

O solitário Jim disse...

tinha que ser cordel.!

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento