31.5.09

Crisálida (ou o que vi)


Vejo com os ouvidos a música cantada por ela. Fico como as borboletas antes de metamorfosearem, escutando a melodia suave e a voz doce me conduzindo para um lugar que eu não vi em seu olhar. Vou confiando na alvorada e na solidão, nos passos versos de um sonhador, das asas certas da lagarta em dor. Vou andando por ai exercitando a paciência nas brincadeiras de roda, nos aconchegos das tardes de domingo. Tenho pensando em fugir de tanta ordem e progresso mas me pego brincando com o gato Gusmão e o nariz de palhaço que ele joga para lá e para cá numa brincadeira inocente de felino ainda menino.

Não sei mais o que vejo no seu olhar. Penso as vezes que criei o que queria ver no seu olhar ouvindo-o e sentindo coisas por mim mesmo. Aquilo que não procurava aparece escrito nas paredes e nas calçadas por onde passo, está escrito claramente em letras vermelhas e rosas – aprender a ver, aprender a viver, aprender a se metamorfosear. Tudo parece claro como as noites mais escuras vejo o que não vi mas o que queria ver no deserto que encontrei aquilo que não procurava. Mas com paciência fujo do mundo nas asas de uma lagarta em dor brincando com o nariz de palhaço do Gusmão.

Elisandro Rodrigues

P.S: Fica a dica de uma banda muito legal, de onde fiz essa brincadeira com duas músicas – Crisálida e O que vi. O nome da Banda é Estramuros acessem: http://www.myspace.com/bandaextramuros

P.S: Foto tirada por Ana Rocha na rua Augusta, São Paulo - outubro de 2008 (http://annamaiarocha.blogspot.com/)

2 comentários:

Anna Rocha disse...

Ai que saudade da Rua Augusta!

Mathiza Cirilo disse...

Olá!!! Fiquei feliz!
bjs
passa lá:

http://comosefosseminha.blogspot.com/2011_01_16_archive.html

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento