3.8.09

No tempo de um abraço.

Nunca contei histórias antes, eu apenas as vivencio. Na verdade algumas eu conto para meu irmão quando nos vemos uma vez por ano. Meu irmão é um bom ouvinte, mas hoje contarei uma história específica para você. Essa história aconteceu assim:

Quando cheguei perto dele, o seu peito começou a doer. Ele acordou com o coração saltando para fora, uma dor insuportável fazendo-o gritar em silêncio. Ele não entendeu nada do que se passava. Parecia que seu coração estava sendo cortado em pequenos pedaços, parecia que estava sendo ultrapassado por facas. A dor era imensa. Demorou alguns minutos para ele me notar no canto escuro do seu quarto. Ele olhou o relógio do celular, eram 3 horas da manhã.
As pessoas me percebem de diferentes formas, apareço como acho mais apropriado para a ocasião. Para ele apareci na minha forma normal, poucos me vêem assim. Eram 3 horas da manhã do dia 3 de agosto, uma segunda feira. Eu vestia uma calça e camisa preta, em meu peito o Ankh brilhava indicando quem eu era. Ele me olhou, todos me conhecem quando o fim está próximo. Ele tinha 25 anos e 43 dias, nascera no dia 22 de junho de 1984 e iria morrer naquele dia 03 de agosto de 2009. Ele me olhou fixo nos olhos e me disse:

“- Sei quem és. Sei por que estás aqui. Tenho duas perguntas para te fazer antes de ir com você, você me responderia elas?”
Disse a ele que responderia suas perguntas, se me fossem permitidas. A primeira pergunta dele foi “Do que eu morri?”. Quando chega a hora qualquer coisa causa a morte, expliquei a ele, mas a sua foi do coração. Disse que as pontadas que ele recebia não eram apenas fisgadas do nada, mas sim um problema que ele tinha que não foi tratado, sendo assim o que causou a sua morte rápida e com muita dor. Dor de um coração parando de bater aos poucos. A segunda pergunta dele tive que pensar um pouco. O diálogo que se travou foi o seguinte:

“- Você me daria mais um dia de vida?
- Por que eu te daria mais um dia de vida? Sua vida acaba de terminar, exatamente as 3 horas da manhã de um dia 03!
- Gostaria de me despedir das pessoas. Acredito que sentirei saudades de muitas coisas que já se foram e de coisas que ainda não aconteceram.
- Creio que estás certo sobre isso. Mas não posso conceder tal pedido, nunca fiz isso a ninguém, por que faria a você?
- Não sei. Quem sabe você não abre essa única exceção?
- Não posso, não tenho como fazer isso.
- Tens sim, sendo você quem é tem como fazer isso. Pode parecer tolo e acredito que muitos já pediram isso antes, mas gostaria de me despedir de algumas pessoas. Gostaria de viver o meu último dia de vida.
- E o que você faria nesse último dia de vida?
- Celebraria a boniteza da minha vida. E daria o último suspiro com um sorriso no rosto, não com a agonia que estou agora.”

Não sei por que disse sim. Não sei se foi pelo olhar que saia daqueles olhos verdes, um olhar de ternura e verdade. Senti compaixão daquela alma. Disse que sim, disse que iria acompanhá-lo naquele dia todo, pois se visse intenção de ele tentar me enganar o levaria no mesmo instante. Não precisou que fizesse isso. Acompanhei o último dia dele, que foi como ele falou uma celebração da vida. Ele não podia me ver, mas sentia minha presença.
Depois de nossa conversa ele voltou a dormir, colocando o celular para despertar às 7 horas da manhã. Mas antes de adormecer novamente me disse:

“ – Não me resta muito dela, apenas um travesseiro, seu cheiro impregnado nele e a sua ausência nessa cama grande. Mas, mesmo assim, será minha última noite ao seu lado.”

Falando isso adormeceu.
Acordou tomou um banho e saiu para caminhar. Fazia frio, as ruas estavam desertas e o orvalho caia sobre sua cabeça deixando suas roupas molhadas. As pessoas de dentro de suas casas não entendiam o que ele fazia caminhando no frio. As 8:30 ele retornou da caminhada tomou outro banho e logo após um café. Começou a ligar para as pessoas que moravam longe, como sua mãe.

“- Mãe como estás?
- Estou bem meu filho. Está tudo bem com você?
- Está sim mãe, só senti saudade e resolvi te ligar dizendo que te amo.
- Estranho você dizendo isso filho, acho que nunca tinha falado isso para mim.
- Pois é mãe, sempre quis te dizer isso, mas nunca tive coragem.”

Ele ligou para seus irmãos, amigos, e pessoas que não via há muito tempo. Todas as conversas foram rápidas, mas em todas falou do sentimento que tinha por elas. Ás 10 horas da manhã seu amigo com quem dividia a casa acordou. Ele o abraçou e mandou o se preparar pois aquele dia eles iam celebrar a vida. Seu colega não entendeu muito bem, mas como estava de férias achou que ele queria começar a semana aproveitando ao máximo. Ligou para outro amigo e reservou o bar para aquela noite. Disse que iria ter uma grande festa em plena segunda. Depois começou a convidar todos os que estavam pela cidade e que ele conhecia de um jeito ou de outro. Sabia que não iria todo mundo, mas mesmo assim convidou a todos e todas dizendo que era sua despedida e que fora chamado para um trabalho em outro estado. As pessoas sempre gostam de ir a despedidas. Passou o dia todo ligando, mandando e-mails e mensagens todos e todas deveriam estar a partir das 21 horas no Bar Disco Voador. Convidou e disse que ia pagar a festa para todo mundo. Chamou quatro bandas próximas dele: Boraimbolá, Pé de Vento, Extramuros e Circ.

Às 20 horas ele estava no bar esperando as pessoas chegarem. Lá ele falou a seguinte frase para seu amigo com quem dividia a casa:

“- Sabe, deixamos muitos pedaços de nós nos outros”.

Aquela frase ecoou dentro de mim. Muitas das frases dele ficaram em minha memória, deve ser por isso que estou contando isso a você. Às 21 horas começou a chegar seus amigos e conhecidos. Veio muita gente para a festa, todos querendo saber como e por que ele iria se mudar. Para todos contava a história que iria para outro estado, um estado muito longe, fora chamado para aplicar e desenvolver uma política de educação. A todos e todas ele abraçava e dava atenção dizendo palavras carinhosas e afetuosas. Algumas pessoas não entendiam muito o porquê, até o questionavam, mas ele apenas dizia que iria sentir saudades dela. Pessoas que ele conhecia a muito tempo, recentemente, antigos amores, antigas paixões, antigos casos amorosos, pessoas de quem não gostava, para todos ele dava atenção, carinho e afeto.
Percebi que tinha uma pessoa que ele procurava com os olhos mais do que outras. Era uma menina de pele branca, cabelos pretos, olhos de um tom meio esverdeado. Ele falara pouco com ela durante a noite, mas a buscava a todo o instante com os olhos. Todos se divertiam na festa. Ele dançou com todos e todas, brincou, abraçou e quando mais próximo estava das 3 horas da manhã do dia 4 de agosto de 2009 completando suas últimas 24 horas de vida, fechando seu ciclo de vida em 25 anos e 44 dias mais feliz ele ficava. Sua felicidade irradiava e contagiava a todos os presentes.
Quando faltavam três minutos para as três horas ele se aproximou daquela menina de quem ele não tirava os olhos a abraçou forte e disse em seu ouvido:

“-Eu te amo. Nosso tempo foi curto. Mas tenho certeza de que morrerei te amando, pois só enquanto eu respirar irei te amar.”

Ela tentou falar alguma coisa, mas sua voz foi apagada por um longo beijo, e seu último minuto de vida, seu último suspiro de vida, seu último abraço foi dela. Ele perdeu-se no tempo em um abraço.

Às 3 horas em ponto eu o toquei no ombro e ele veio comigo sem mais palavras apenas com um sorriso no rosto. Eu o abracei e o levei comigo para o lugar onde ele iria passar o resto da eternidade. Ninguém sabe onde vai passar, ninguém sabe para onde vai mas para você eu irei contar.

- Por que justo para mim?

- Pois desde aquele dia se passaram 60 anos. E naquele último abraço que ele deu naquela menina ele o abraçou também. Pedro essa é a história do último dia de seu pai.

Lágrimas rolaram pelo rosto envelhecido pelo tempo. Pedro as enxugou e me disse:

- Obrigado por me contar essa história. Minha mãe e alguns amigos dela me contaram várias histórias sobre meu pai, mas essa foi a mais bonita, como ele dizia, de uma boniteza só. Posso te perguntar uma coisa antes de me levares?

- Depois do tempo que passou me ouvindo você pode fazer qualquer pergunta?

- E para onde eu vou após morrer?

- Você irá para junto de seu pai, no mundo do meu irmão, no mundo do sonhar, no Mundo Paralelo.

Pedro olhou-me com os olhos cheio de lágrimas e em um último suspiro me abraçou.


Elisandro Rodrigues






4 comentários:

Tiago disse...

O que falar deste texto, hein, hein? Que drama mortal. Enfim, isso que é doideira no meio da madrugada, foi efeito do vinho, hauhuauha.

Débora disse...

Chorei

O solitário Jim disse...

marcando presença justamente nesta otima leitura.

Preta Lopes disse...

Triste, comovente, lindo!
..ainda bem que é foi só uma história. rs

.
.

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento