25.8.08

Ser Feliz ou acomodar-se


Eram cinco horas da tarde de uma Sexta-feira nublada e cinzenta de Porto Alegre, da janela podia-se ver no meio dos prédios algumas árvores, um pedaço do Parque Farroupilha e do Guaíba. Abriu uma página de texto no computador e começou a digitar algumas frases sem sentido, parou na terceira linha, apagou tudo o que tinha escrito. Fechou a página. Desligou o computador. Eram cinco e quize, faltava ainda quinze minutos para terminar o expediente. Não deu bola para isso. Pegou a carteira, as chaves de casa e o cigarro. Abriu a porta, acendeu um cigarro e saio para a rua.
Havia começado a garroar novamente, como diria os mais antigos, ‘uma chuva de molhar bobo’. Bobo era ele, pensou alto. As pessoas que caminhavam na calçada o olharam estranho mas não deram muita atenção. Pessoas que conversavam sozinhas existiam aos montes na cidade. Começou a caminhar devagarinho, contando os passos e brincando de pular por cima das poças de água formadas pela chuva. Ia feito criança grande. Tinha prometido escrever um texto mas fazia dias que as idéias não lhe surgiam. Havia pensando em escrever algo romantico para ela, mas seu romantismo estava em baixa.
Ele escrevia alguns textos, quase crônicas, mas não tinha dom para a literatura, apenas brincava de escrever. Parando para pensar sempre brincara em sua vida, não sabia ao certo se isso era bom ou ruim, mas sua caminhada até aquele momento nunca foi séria. Já havia brincado de ser ator por alguns anos. Já havia brincado de ser acadêmico, de ser militante do movimento estudantil e político. Agora brincava de trabalhar sério. Não tinha muito prazer pelo que fazia, era um trabalho importante, sem dúvidas, mas ele não nasceu para a burocrácia.
Não lembrava muito bem porque havia prometido um texto, só lembrava da ultima conversa dela dizendo que não vinha ver ele e que as vezes as pessoas tem duas opções: Ser feliz e ousar sempre, ou ficar sentado na vida acomodada que levamos e não ser feliz. Ele havia conhecido ela por acaso, na verdade ela o conheceu antes. Ela leu um de seus textos, acabou gostando, se identificando e mandou para ele um e-mail, isso havia acontecido há uns 4 meses. Coisa de louco, ele nunca pensou que alguém lia o que escrevia, escrevia por escrever para colocar o que pensava e sentia no papel. Depois daquele dia os dois foram conversando e se aproximando cada vez mais, uma aproximação virtual, mas logo depois começaram os telefonemas e as mensagens no celular. E como diz a música ‘é que as vezes a gente nunca sabe de quem vai gostar’.
O gosto começou a aumentar, o afeto que afetou os dois foi grande e a paixão surgiu. Paixão de brincantes, de duas pessoas distântes, ela sempre tendem a ser uma paixão louca, uma paixão sem dimensão, fora da realidade. E assim estava sendo até ela dizer que vinha visita-lo. Quando disse isso ele tremeu de alegria e felicidade, mas também teve medo do que poderia acontecer. Ficou dias pensando e planejando aquele final de semana. Sair para jantar na Sexta a noite, Sábado de manhã ficar em casa curtindo o frio que aquele final de semana estava fazendo, pela tarde passear por Porto Alegre, ver o pôr-do-sol no final da tarde no Gasômetro, a noite curtir um show, um teatro ou cinema e passar a noite toda abraçados juntinhos. No Domingo pela tarde redenção e a noite ela ia embora novamente e a vida voltaria para a comodidade de sempre.
Tinha pensando em tudo, tinha pensado em como seria o primeiro beijo, e se haveria outros beijos, e se este beijo levaria a mais coisas. Mas toda esta programação havia ido por água abaixo, no meio da semana ela falou que não viria mais. Um caminhão de água fria para seus planos. Ele ia caminhando e pensando estas coisas, pensando no final de semana teria que refazer seus planos, possivelmente iria ficar em casa trancado e solitário.
Chegou no centro, contou as moedas para a passagem, não tinha o suficiente, teve que ir no banco tirar mais dinheiro. Saio do banco, queria matar o tempo, decidiu tomar uma cerveja. Sentou no primeiro bar que encontrou, pegou uma mesa no canto e pediu uma polar para o garçon. Eram seis e trinta e cinco da tarde. Dali vinte e cinco minutos era para ela estar chegando. As sete horas já havia tomado duas cervejas. Às oito passava das cinco. Às dez horas já não fazia idéia de quantas tinha tomado. Meio tonto resolveu comer alguma coisa antes de ir para casa. Onze e meia pegou o ônibus. O percurso todo fez dormindo, sonhando com os beijos e abraços que não teria naquele final de semana.
Ao chegar em casa, demorou-se para entrar, ficou na frente da porta encarando-a, pensando que ela abriria sozinha. Colocou a chave na fechadura girou-a e entrou, estava tudo escuro dentro de casa, foi caminhando até chegar em seu quarto, acendeu a luz e viu alguém em sua cama. Ela era. Olhou com carinho para aquela menina dormindo como se fosse uma princesa. Não conseguia pensar nada, ás únicas palavras que vinham em sua mente eram: ‘Às vezes temos duas opções: Ser feliz e ousar sempre, ou ficar sentado na vida acomodada que levamos e não ser feliz’.
Deu um beijo suave na cabeça dela, apagou a luz e foi dormir na sala.

Elisandro Rodrigues
Agosto de 2008

Um comentário:

Preta Lopes disse...

EnoO!!
Perplexa, diante de tuas escritas, e isso não é novidade,neh?! rs... como se não ficasse sempre que o leio.
"Histórias que nos contam na cama
Antes da gente dormir..."

"Quem já conseguiu dominar o amor?
Por que é que o mar não se apaixona por uma lagoa?
Porque a gente nunca sabe de quem vai gostar. "

Bjos Grandes na Ponta do Nariz

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento