22.5.08


Somos atores em um ato sem aplausos.
Parece que não sabemos quem somos. Ficamos perdidos no meio das luzes que nos cegam, no meio de tantos personagens que fingimos encenar para nos esconder de nós mesmos. Escrevemos cartas para nós disfarçando a solidão e a tristeza ou para tentar nos acharmos. Em vão preenchemos folhas e folhas.

Ainda assim, sempre que pensamos estar sendo como queríamos ser, como desejamos ser, vem a lembrança de estar fazendo algo errado. E o que é isso? Nada mais, nada menos que a certeza de que estamos sendo não quem pensamos ser e sim, a pessoa que os outros querem que a gente seja.

Quando vamos dar um grito de liberdade, quando vamos soltar o verbo, mandar tudo para o alto. Na verdade quando vamos sair de nós mesmos para ser quem queremos ser. Há de chegar o dia em que a liberdade vai bater asas e voar. Enquanto este amanhecer não chega vamos encenando nossas próprias vidas.

E por hoje .......por hoje continuamos sendo quem não somos.

Eu não sei na verdade quem eu sou,
Já tentei calcular o meu valor,
Mas sempre encontro sorriso e o meu paraíso é onde estou...
Por que a gente é desse jeito
criando conceito pra tudo que restou?



Elisandro Rodrigues
Ricardo Amaral
Foto de Beatriz Rodrigues
... tentando ser elas mesmas....

Um comentário:

Preta Lopes disse...

(...)Em vão preenchemos folhas e folhas(...)

Não! onde há sentimento não há o que seja em vão!

Bjos
Como sempre, Continue!
c(=

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento