21.10.06

Uma pedagogia do Contágio
Elisandro Rodrigues[1]

“-Eis meu segredo – disse a raposa.
-É muito simples: só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.
-O essencial é invisível aos olhos – repetiu o principezinho, a fim de lembrar (...)
-Os homens esqueceram esta verdade – disse a raposa. – Mas tu não a deves esquecer.”[2]

Contágio, segundo o dicionário Aurélio é, transmissão de doença por contato imediato e mediato, e contagiar é transmitir por contágio; pegar doença por contágio. Hoffmann[3] quando aborda a Pedagogia do Contágio, acredito que quer dizer isso, fazer com que os professores e educadores fiquem doentes, que peguem a doença. Mas que doença?
A doença de uma educação que seja transformadora, humanizadora acima de tudo. Ao tratar deste tema referindo-se a avaliação e processos de avaliação fica claro que ela quer nos mostrar um outro viés de avaliação, a avaliação formativa e mediadora, que emancipa, e que está preocupa com o aprender: aprender a aprender, aprender a fazer, aprender a viver junto, a prender a ser. Avaliar respeitando os tempos e espaços do educando.
É necessário um contágio do prazer em ensinar, e do prazer em aprender, como ela diz citando Fernandez, “a tarefa do professor, para além de ensinar, é a de abrir espaços para aprender, onde se dêem, simultaneamente, a construção de conhecimentos e a construção de si mesmo, como sujeito criativo e pensante”. É preciso quebrar com a lógica que devemos aprender para ser melhor que o outro, ou simplesmente para passar de ano, de série. Avaliar esta aprendizagem, não quer ter por objetivo ver se os alunos aprenderam, mas sim se perguntar como criar aprendizagens que sejam prazerosas e se este aprendizado, que esta sendo ensinado, é construtor de emancipação do educando enquanto sujeito de direito.
O ato avaliativo deve ser humanizador, e não desumanizador, “Práticas avaliativas autoritárias são minas espalhadas por nossas escolas. Detonam a toda a hora e mutilam o desejo de aprender de crianças e jovens. Despertam sentimentos de opressão, de insegurança, de injustiça, de exclusão pelas sentenças de fracasso escolar. Não é este o sentido da avaliação. (...) No lugar de minas, que se enterrem esperanças1”
Este caminho de descobrir e de se contagiar não se faz sozinhos, já sabemos, como diz um dito popular, “andorinha sozinha não faz verão”, é necessário caminharmos com outros que pensam como nós, e devemos praticar essas ações pensadas, compartilhar prática, e compartilhar teoria também. Todos os processos de mudança que são significativos para a humanidade, acontecem em coletivos.
É preciso respeitar os espaços e tempos, é preciso avaliar com sensibilidade, com justiça, valorizando as diferenças de desejar e de aprender, os tempos de cada educando. É preciso ensinar com prazer, reapaixonar os alunos, reencantar a educação. E este processo depende muito dos atuais educadores, professores que estão em formação nos cursos superiores. O que será da nova geração de professores se não houver um reencantamento por uma educação libertadora e promotora da dignidade e da esperança em aprender a Ser-Humano no mundo e com o mundo.
A Raposa, no livro do Pequeno Príncipe, deixa claro que os homens, e as mulheres, esqueceram a verdade, que o essencial é invisível aos olhos, que só se vê bem com o coração. Os nossos corações vêem uma educação liberdadora, uma educação onde as práticas avaliativas e pedagógicas sejam fontes de prazer, de vida, de vontade de construir mundos. Práticas que fazem o sonho de uma escola diferente, de uma escola voltada aos espaços e tempos dos alunos e alunas. “Proponho, sobretudo, resgatar cada aluno e cada professor do coletivo da escola, transformando-os em indivíduos de direitos. Direito ao afeto, direito ao dialogo, direito a convivência, direito ao respeito de ser o que é no seu tempo de ser, sobretudo, de ter a oportunidade de aprender todos os dias enquanto viver.”(Hoffmann, 2005) Proponho também lembramos do que a raposa nos disse, “Mas tu não a deves esquecer”.
Vamos nos lembrar e adoecer outras mulheres e homens, contagiar com a proposta de uma educação transformadora e libertadora.

Referencias Bibliográficas:
HOFFMANN, Jussara. O jogo do contrário em avaliação. Porto Alegre: Mediação, 2005.SOSA, Edgardo. O Essencial é invisível aos olhos: reflexões a partir do O Pequeno Príncipe, São Paulo: Paulinas, 2001.


[1] Elisandro Rodrigues, é acadêmico de Pedagogia, cursando o 4° semestre. Participa de um projeto de Pesquisa intitulado “Democratização na escola: construção do conhecimento e inclusão”, do Centro Universitário Metodista IPA.
[2] Ver Bibliografia utilizada.
[3] Este texto nasce a partir da leitura de alguns capítulos do livro de Jussara Hoffmann, “O jogo do Contrário em avaliação”, que motivou a escrever sobre avaliar, cuidar, e ver o que é invisível aos nossos olhos.

2 comentários:

Karina disse...

Texto maneiro..Acho que no dia 20 de outubro... foi publicado um artigo do Adroaldo Gaya, sobre escolas... o artigo é: "O corpo não vai a escola" o linck é este que vou colocar aqui... achei bem interessante... espero que goste!
http://www.via-rs.net/noticias/via_interna_noticias_artigo.php?fazer=mostrar&cod_news=7572576&ed=geral
Um bj

Aierroc disse...

Gostei de seu blogger.Eu sou Wesley Aierroc,sou editor de um jornal universitario,se vc puder me enviar algum artigo e se quiser contribuir com o nosso acervo de artigos,ficaremos gratos...ow de uma olhada http://wrcaierroc.blogspot.com/

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento