25.10.12

De quando o corpo vaza

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Começou a escorrer quando abriu a porta e saio. Mundos desciam com força corpo abaixo. Esguichava resíduos. A pedra foi arremessada com força. O corpo educador que achava que rompia foi rompido. Vazou sonhos. Utopias. Esperanças. Desceu pelo ralo a forma que tinha. A potência do choque o arrancou da cadeira. Soco. Pedra. Quebrou a imagem que resistia: a de uma escola que tenta pensar. Os sentidos, as imagens fabricadas esfacelaram-se em um acontecimento. A pergunta que não soube fazer não se fez. Vazou. Se desformou.

O corpo educador-infantil que desconstruía perdeu força, despontencializou-se. Os vazios tomaram conta. O rasgão interior foi grande, mas ninguém percebeu. Molhava os lugares e os outros corpos por onde passava. Ninguém o via. Ninguém se interessava. Ninguém se importou. Percebeu pela primeira vez buracos aqui e ali nos corpos educadores que passavam. Não saia nada deles. Caminhavam e falavam vazios. Corpos sem potência. Corpos professoris que não brotam. Não pensam. Apenas seguem o fluxo, os caminhos de tijolos vermelhos, da dita verdade.

'Você fez concurso pra que?' lembrou da pedra jogada de um corpo que sabia a resposta [ou acreditava que sabia].

Nos rabiscos do a[o]caso uma imagem-lembrança saltou do que escorria corpo abaixo. Lembrou de um pensamento-educação: 'desprofessorar'. Construir emaranhados de riscos, redes de saúde-educação-cultura, fazer Acompanhamento Terapêutico no chão escola. Vazar possíveis desalunos. A não-resposta saltou da língua. Ninguém o ouviu. Fecharam o tecido cartilaginoso do pavilhão auricular.

O que vazava do seu corpo abria o nariz, os olhos, a boca, as orelhas. As fendas aumentavam. Uma sensação estranha passou pelo seu corpo. Esvaziava-se violentamente. As substâncias pegajosas, grudentas, fétidas, amargas, abriam novos sentidos, percepções, afecções.

Sentiu-se vazio. Um vazio-cheio. Olhou três imagens que demoravam-se a escoar pelo ralo: uma imagem-lembrança de uma educação tradicional, dogmática, despontencializadora; uma imagem-lembrança-do-presente-atual de uma ilusão, de um faz de conta que se pensa a educação e que se faz uma educação diferenciada; e uma imagem que descia em um círculoquadradoretângulo junto com nacos de instantes, intervalos, fendas que brilhavam: uma imagem-cristal. A vidência de outros possíveis mergulhou no olho dentro do olho: algo que vaza para ir produzir em outro lugar. Viu sem ver um corpo que junta dos cacos, dos pedaços, dos pormenores um desassossego em profundidade, uma alucinação sem borda, um possível desajeitado, torto, um broto.

Nesse pular do olho pensou, se perguntou: Quando um corpo vaza o que brota?


Elisandro Rodrigues

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Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento