1.8.12

Olha lá fora.

Meu bem, quando sair para a rua olhe a lua.

Elisandro Rodrigues

19.5.12

13 Microcontos



# 1
Não reconheci aqueles olhos verdes debaixo das pálpebras com olheiras. Aquele rosto coberto por espessa, fina e desordenada barba. Não me reconheci no espelho.

# 2
Hoje vi um louco gritando na rua. Gritando pelos seus direitos.

Microconto para todos os Mentaleiros.
Viva a Reforma Antimanicomial.

# 3 
Depois de dois dias o Frango a passarinha voa para minha boca.

# 4
-O que é esse desenho?
-Um barconauchuva!

# 5
- No que você está pensando?
- Dois palitos.

# 6
No olho dentro do olho fogem meus sonhos.

# 7
A estupida mosca dança na lâmpada apagada.

# 8
Vento palavras brincando de tempestade.

# 9
No espaço vazio o único som que se escuta é do corpo caindo.

# 10
A vaca ao longe muge e pasta.

# 11
Pelas ruas desertas cambaleante segue o homem bêbado.

# 12
Trago o último gole de uísque e saio do bar para o frio da vida.

# 13
Pela janela que olho sem ver pingo luz.

Elisandro Rodrigues

22.4.12

De uma pequena história sem pé nem cabeça: Da menina que vive em estado gasoso




Certa vez em uma caminhada pelas nuvens encontrei pedaços de linhas voando livres pelos céus. Linhas coloridas, preto e branco, se fazendo notas, distraídas, com impressões sem impressões. Segui aquelas linhas para ver de onde vinha, ou para onde ia.
Encontrei uma menina no final de várias palavras soltas " a golpes [goles] de pequenas solidões". Menina estado gasoso, sempre liquefazendo-se entre nuvens, chão, ar, flores, desenhos. Nesse encontro, que vim a saber depois que é sempre desencontro, alguns ventos foram ventados. Ventos de Pormenores. De Afecção. De imagens em movimentos. De distração dos esquecimentos. Poucas foram as vezes que encontrei essa menina que vive em estado gasoso, os encontros se davam no desencontro, nunca entendi ao certo o por que disso, mas com as linhas soltas das conversas rendilhei outras linhas de possíveis.
Com o tempo deixei de encontrar essa menina que sempre vive em estado gasoso, acredito que por ela estar sempre vagando entre nuvens e linhas, entre chuvas e ventos, que a dificuldade do desencontro é maior.
Se alguém a avistar avise que um menino dos Pormenores precisa conversar com ela, para rendilhar alguma palavras, dobrar em outras linhas os escritos nos desencontros. Enquanto não a vejo sigo pulando de nuvem em nuvem.

Elisandro Rodrigues
[Da escrita de um e-mail]

4.4.12

Poesia citadina

A noite é estranha.
Vemos muitas cenas no adormecer dos olhos.
1) Um catador de papelão, sem camisa, com cara de cansado falando no celular "...tu podias fazer uma boia pra mim".
2) Gari varrendo a calçada fala para um passante "parece chiqueiro...".
3) Rapaz, de aproximadamente 35 anos, caminhando numa rua movimentada, em uma mão sacola de compras, a tiracolo uma bolsa, nos olhos lágrimas e no rosto expressão de dor, caminha lentamente desviando-se dos passantes.

Elisandro Rodrigues

12.3.12

Pedagogia e Comunicação



O pedagogo Elisandro Rodrigues (@perilampando) ficou em primeiro lugar na categoria “blogs e sites” do concurso de comunicação colaborativa promovido pelo Conexões Globais 2.0 em em parceria com a Empresa Brasil de Comunicação e o Governo do RS. Elisandro atuou como repórter multimídia durante o evento, realizado de 25 a 28 de janeiro, na Casa de Cultura Mario Quintana, em Porto Alegre, junto ao Fórum Social Temático 2012.

Nesses quatro dias, ele utilizou seu celular para fazer fotos e compartilhar nas redes sociais suas impressões e opiniões sobre a programação e os bastidores do evento. Sabendo do concurso, o comunicador publicou um “diário de bordo” no seu blog. O resultado (que pode ser conferido aqui) ficou muito interessante e ganhou a preferência da comissão julgadora do concurso. Elisandro será premiado com um tablet.

Conheça também o trabalho da Cris Rodrigues (@crisprodrigues) - http://bit.ly/w6H9Cz (2° lugar) e da Isadora Machado (@isadoras) – http://bit.ly/xdmnA3 (3° lugar).

Leia, abaixo, o e-mail que o Elisandro nos enviou e saiba um pouco mais sobre ele.

Olá, pessoal do @Conexões!

Sou Elisandro Rodrigues, tenho 27 anos, sou Pedagogo e atualmente trabalhando como professor em Sapucaia do Sul. Morro em Porto Alegre desde 2001, nasci em uma cidade do interior do estado, divisa com Santa Catarina, Iraí. Sempre fiz #conexões com outras áreas: cultura, arte, comunicação, saúde…. Sempre penso onde a educação pode estar inserida, não para “educar” mas sim para construir processos, [in]ventar outras alternativas.

E é esse o motivo pelo qual sempre estou inserido nos movimentos sociais, nas lutas pela Cultura Livre, Por uma Saúde e Educação de Qualidade, pelos direitos da Juventude. Sempre fazendo #conexões, conectando sonhos e lutas, utopias e desejos pois sigo acreditando que “um outro mundo é possível”.

Participar do @ConexõesGlobais possibilitou uma entrada maior nesse mundo da #CulturaLivre, da #CulturaDigital. Nos últimos anos venho acompanhando o Movimento Música Pra Baixar [MPB], e por isso optei nesse FST de acompanhar e me inserir no @ConexõesGlobais. Nesse espaço me descobri como um Comunicador Colaborativo, como um “agente de informação”. Sempre fiz isso nos espaços de militância: comunicar, facilitar o fluxo de informação, construir um olhar mais delicado desses espaços.

Mas no #conexões foi a primeira vez que ousei criar uma escrita para dar corpo a esses desejos. O Concurso foi um dispositivo para isso, uma ferramenta para essa tecnologia da escrita. Uma tecnologia leve e reinventativa. Fiquei sabendo do concurso pelas divulgações do @ConexõesGlobais e decidi pensar nessa tecnologia leve da escrita, pensando um olhar mais poético sobre o que estava acontecendo, na casa do poeta, e no #conexõesglobais.

Fico muito feliz e contente por ter sido selecionado e ficado em primeiro lugar. Concursos como esse são importantes pois motivam outras criações estéticas, constroem novos agenciamentos, novos devires dessas ferramentas da comunicação:texto, fotografia, audiovisual… Minha avaliação caberia nas palavras ditas pelo Fernando Anitelli em uma de suas músicas, e que muita gente pelas redes sociais no @ConexõesGlobais fez coro, “queremos isso todo dia”, ou todo ano. O @ConexõesGlobais não foi dez, foi 2.0.

Abraços,
Elisandro Rodrigues

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento