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19.5.12

13 Microcontos



# 1
Não reconheci aqueles olhos verdes debaixo das pálpebras com olheiras. Aquele rosto coberto por espessa, fina e desordenada barba. Não me reconheci no espelho.

# 2
Hoje vi um louco gritando na rua. Gritando pelos seus direitos.

Microconto para todos os Mentaleiros.
Viva a Reforma Antimanicomial.

# 3 
Depois de dois dias o Frango a passarinha voa para minha boca.

# 4
-O que é esse desenho?
-Um barconauchuva!

# 5
- No que você está pensando?
- Dois palitos.

# 6
No olho dentro do olho fogem meus sonhos.

# 7
A estupida mosca dança na lâmpada apagada.

# 8
Vento palavras brincando de tempestade.

# 9
No espaço vazio o único som que se escuta é do corpo caindo.

# 10
A vaca ao longe muge e pasta.

# 11
Pelas ruas desertas cambaleante segue o homem bêbado.

# 12
Trago o último gole de uísque e saio do bar para o frio da vida.

# 13
Pela janela que olho sem ver pingo luz.

Elisandro Rodrigues

22.4.12

De uma pequena história sem pé nem cabeça: Da menina que vive em estado gasoso




Certa vez em uma caminhada pelas nuvens encontrei pedaços de linhas voando livres pelos céus. Linhas coloridas, preto e branco, se fazendo notas, distraídas, com impressões sem impressões. Segui aquelas linhas para ver de onde vinha, ou para onde ia.
Encontrei uma menina no final de várias palavras soltas " a golpes [goles] de pequenas solidões". Menina estado gasoso, sempre liquefazendo-se entre nuvens, chão, ar, flores, desenhos. Nesse encontro, que vim a saber depois que é sempre desencontro, alguns ventos foram ventados. Ventos de Pormenores. De Afecção. De imagens em movimentos. De distração dos esquecimentos. Poucas foram as vezes que encontrei essa menina que vive em estado gasoso, os encontros se davam no desencontro, nunca entendi ao certo o por que disso, mas com as linhas soltas das conversas rendilhei outras linhas de possíveis.
Com o tempo deixei de encontrar essa menina que sempre vive em estado gasoso, acredito que por ela estar sempre vagando entre nuvens e linhas, entre chuvas e ventos, que a dificuldade do desencontro é maior.
Se alguém a avistar avise que um menino dos Pormenores precisa conversar com ela, para rendilhar alguma palavras, dobrar em outras linhas os escritos nos desencontros. Enquanto não a vejo sigo pulando de nuvem em nuvem.

Elisandro Rodrigues
[Da escrita de um e-mail]

19.11.11

::A Fo[car]tografia e os Pormenores das Artes da Vida::

Nesse emaranhado cartográfico fiquei pensando por que janelas olhar esses fragmentos do vivido e experienciado através de fotos [cartografia fotográfica], fico me perguntando: o que são esses fragmentos que vivemos [vividos]?D[o] que eles dizem, de que subjetividade estamos falando, de que processos, o que [não] é capturado pelo olho? O que [não] olhamos?

Capturando uma palavraimagemfotografada de Barthes [da Câmara Clara, 2009] esses processos, essas imagens em fragmentos seriam um #pormenor. Esse conceito molhou meu corpo, me coloriu, me afetou [talvez o #punctum Barthiano].

Nesse espaço habitualmente unário, por vezes (mas, infelizmente, raras vezes) um <<pormenor>> chama-me a atenção. Sinto que a sua presença por si só modifica a minha leitura, que é uma nova foto que contemplo, marcada, aos meus olhos, por um valor superior. Este <<pormenor>> é o punctum (aquilo que me fere)....Do ponto de vista da realidade (…) toda uma causalidade explica a presença do <<pormenor>> (…) o pormenor é dado por acaso e mais nada...” [Barthes, pg, 51]

Esses #pormenor[es] dados por acaso, que ferem nossa atenção, machucam nossos olhos, nossos corpos são o que nos impulsionam a clicar [disparar] fotos apenas pensadas [apenas imaginadas]. Ficamos com essas imagens em nossas mentes [in]visível, nos mo[v]im[enta] para o cotidiano de nossas vidas.

As imagens se comunicam com nossos corpos “tudo o que podemos dizer é que o objecto fala, induz, vagamente, a pensar” [Barthes, pg 47]nos atinge com seu #pormenor, nos fere. Grita em silêncio dentro de nossos olhos [na invisibilidade das cores], provoca estreme[nas]cimentos, “o que eu vejo é o pormenor descentrado” [Barthes, pg 60]. Nas correrias do cotidiano olhamos sem ver. Não deixamos as imagens entrar, não deixamos as imagens pensadas [imaginadas] saírem.

Barthes fala que devemos “nada fazer, fechar os olhos, deixar que o pormenor suba sozinho à consciência afectiva”[Barthes, pg 64], dar tempo a essa #pormenor é deixar o “olhar tátil” de Bavcar [Memória do Brasil, 2003] nos guiar, ser também uma câmara escura, fazer as imagens pensadas palavras, “olhar com nossos próprios olhos, por mais frágeis que sejam”[Bavcar, pg 140].

Abrindo-me para meus próprios olhos [tentando enxergar com o corpo, fechando os olhos] um #pormenor “entrepalavras” [Bavcar, pg 120] emergiu de um poeta [Manoel de Barros] e fo[car]tografou que “Imagens são palavras que nos faltaram./Poesia é a ocupação da palavra pela Imagem./Poesia é a ocupação da Imagem pelo Ser./Acho que o nome empobreceu a imagem” [do poema Uma didática da invenção, e, O guardador de águas].

Nesses mo[v]im[ento]s de pensar o que [não] olhamos, e de que forma [não] olhamos, esse poeta brincou com a palavra e a imagem. Bavcar fala que as vozes fazem ressuscitar as imagens, e que as vezes “as palavras se vão como os instantes que elas enfeitaram.” [pg 130],mas creio que as imagens enfeitadas permanecem guardadas e saltam ao nosso corpo [olhar tátil] com os #pormenores nos encontros cotidianos.  

Abrir. Fechar. Capturar. Disparar. Palavra. Imagem. Estar aberto ao #pormenor é o que convoca a essas experimentações fo[car]tográficas, e para o dia 03/12 que tal experienciarmos o brincar de palavras e imagens de Manoel de Barros com as poesias do livro Ensaios Fotográficos*? Na espera de vocês para fechar os olhos, enfeitar as vozes e palavras, deixar o #pormenor surgir e quem sabe fotografar o silêncio.
*Podemos achar as poesias desse livro na internet, ficamos apenas com a primeira parte “ensaios fotográficos”, os nomes do poemas são: O Fotógrafo/Gorjeios/ O Roceiro/Línguas/O Aferidor/Comparamento/Despalavra/Ninguém/O vento/Miró/Ruína/Bola sete/ Rabelais/O Punhal/O Casamento.

Elisandro Rodrigues


:::Evgen Bavcar:::
Portrait with hands

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento