3.7.10

Ponto.

Ele sempre quis escrever, mas em vez disso apenas lia. Passava o dia todo lendo blogs, contos, Xerox, revistas. Cansava-se de tanto ler. Um dia Ele resolveu escrever e o que escreveu foi: Cansei (ponto).

Elisandro Rodrigues

2.7.10

Imagens em movimento


Nos caminhos que cortam as vidas cotidianas Ele seguia caminhando como mais um se misturando na multidão das seis da manhã. A diferença Nele era o olhar que fitava a tudo e a todos gravando e registrando imagens. Imagens que falavam com ele, que mostravam os sentimentos e a poesia escondida por trás das caras amaradas e dos objetos frios do amanhecer. Nas imagens nuas e cruas pequenas percepções e rumores discretos naquele vazio propulsor de fios, roupas, concretos.

Sentado ao lado de uma pessoa adormecida a música do fone saltava pelos ouvidos alheios e cai no dele “Deixa, deixa, deixa eu dizer o que penso dessa vida preciso demais desabafar!”. As imagens e o silêncio desabafavam na manhã cinzenta e melancólica onde a nevoa beijava o chão.

As imagens queriam ser um Mar, queria ser desses Mares que se molham que molham e espalham as securas dos dias que nos movem. Ele também queria ser um desses mares. Percebia acordando-se para as imagens do dia, para as pessoas com seus sorrisos amarelos, para o café amargo de quem ainda não descansou os olhos.

Corpos inabitados nas imagens frias da manhã. A lentidão da luz da manhã deixando as formas irreconhecíveis. Na passada do ônibus a lentidão do tempo. A lentidão do silêncio que enquadrava para a fotografia acontecer. As imagens resistiam em sair dos seus olhos para o silêncio do esquecimento. Num nascer e morrer os olhos acabavam com a potência das imagens em segundos, ficando apenas na lembrança do silêncio Dele. Mas enquanto ele segue, as imagens seguem em movimento.


Elisandro Rodrigues

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento