20.2.10

Olhar 43

Aquela era mais uma manhã como as outras. Pedro acordou às seis horas da manhã tomou se banho seu café e saio de casa para o trabalho. O Metro estava lotado como sempre. Quem dera ele chegar as quinze para as sete na estação e pegar um vagão que já não estivesse cheio. Teria que seguir espremido por mais quinze minutos até a próxima estação quando em fim desceria e iria caminhar mais dez minutos ao seu trabalho. Chegando ao trabalho bateria o ponto e começaria mais um dia na sua tarefa de atender assinantes com problemas na internet ou no cabo da televisão.

Mas aquela manhã não seria como as outras. Ao entrar no metro cheio e, tentar achar um canto onde não fosse espremido pelos trabalhadores sonolentos do vagão, acabou ficando de frente a uma menina. Aparentemente mais uma menina dentro do vagão lotado. Mais uma menina que acordará no mesmo horário que ele – e quem sabe trabalhasse no mesmo prédio que ele. Mais uma trabalhadora que acorda cedo para sustentar o patrão e levar felicidade aos internautas e assinantes de TV a cabo.

Mas Pedro sabia que era não era mais uma menina naquele vagão. Pedro sabia que era ela “A” menina do vagão. Ela estava vestida como uma menina normal de calça jeans, uma bota timberland (uma bota de trilha achou ele), e uma camiseta branca com as mangas cortadas deixando a mostra o top branco por baixo e conseqüentemente os seus seios. Na camiseta branca havia uma frase escrita que primeiramente ele não leu se atendo a analisar o volume por baixo dela.

O que chamou tanto a atenção de Pedro, naqueles quinze minutos dentro do metro a observar “A” menina, foram três coisas. A primeira a camiseta branca com a frase “Só enquanto eu respirar ...vou me lembrar de você” (aparentemente mais uma fã do Teatro Mágico, o que já era de esperar na cidade de São Paulo). A camiseta com o top branco deixava os seus seios da menina mais realçados, e de como Pedro estava de pé em frente a ela tinha uma visão privilegiada da beleza da camiseta e dos seios da menina. A segunda coisa que chamou a atenção dele foi o livro que ela vinha lendo, na verdade uma Graphic Novel chamada Persepolis (chegando ao trabalho ele procuraria na internet para descobrir sobre o que se tratava a história). Uma leitura que mostrava que ela deveria ser Cult. E por fim a terceira coisa que o chamou a atenção e que deixou ele pensativo pelo resto do dia foi o olhar dela.

Um olhar de Capitu – como definiria Machado de Assis, olhar que penetra e conta segredos, conta histórias e, sobretudo que encanta. Foi esse olhar que chamou que o cativou e o enlouqueceu. Após uns cinco minutos dentro do metro ela olhou para cima e o encarou por uma fração de segundos antes de voltar à leitura. Nessa fração de segundos ele se sentiu desnudo, sentiu-se apaixonado por aquele olhar, sentiu-se feliz por pegar um metro lotado cinco vezes por semana antes das sete horas.

Pedro foi para o trabalho com aquele olhar margeando todos os pensamentos. E assim ele ficou pelo resto da semana enamorado pelo olhar – e também pelos seios da menina, diga-se de passagem. Tentou sem êxito encontrá-la nos outros dias. Convicto de sua paixão Pedro tinha certeza do que fazer. Subiu no ultimo andar do prédio que trabalhava (trigésimo primeiro andar) abriu a janela e se jogou de lá. Ao cair lá de cima ele lembrou pela ultima vez do olhar da menina e que ao de sair do metro ela beijou o menino que estava ao seu lado .... antes de cair no chão e espatifar-se essa visão do beijo se apagou dando lugar ao seios dela. No chão em pedaços alguns passantes e pessoas curiosas que olhavam Pedro desfigurado e espatifado podiam jurar que ele tinha um sorriso no rosto desfigurado de Pedro.

Elisandro Rodrigues

Espírito de Porco

Pré Roteiro (de brincadeira) de um curta pensando durante um final de semana com o pessoal do Couch Surfing.

Espírito de Porco

Roteiro de Elisandro Rodrigues, Ciclano e Beltrano

Porto Alegre, fevereiro de 2010

Personagens:

Nome – descrição.

Cenários e locações:

Apartamento do Madson, ruas do centro de Porto Alegre, Bares de Porto Alegre

Planos:

Cada Plano será filmado conforme o Ambiente. É interessante filmar pegando o Plano Geral, Plano Conjunto e Plano Detalhe das pessoas falando.

SEQ.

IMAGEM

ÁUDIO

1

Imagem abre à partir do Fade in mostrando um porão escuro com telhas de aranha por todos os lados e objetos antigos no chão (máquina de escrever, caixa de fotos velhas, aparelhos estranhos, ganchos pendurados, ...) a luz pisca aos poucos mostrando os objetos e apaga novamente mostrando o Fade Out.

[Fade In]

Barulho de porco gritando antes de escurecer a tela.

[Fade Out]

2

Caminhão de mudança chegando. Carregadores levando mudança para dentro do apartamento, largando caixas, TV, PC, cama, sofá. Mostrando todos os cômodos.

Ao lado da cozinha uma porta branca com aspecto de encardida e velha está trancada.

Caminhão saindo da frente do apartamento.

[Fade In]

(Barulhos do ambiente conversas aleatórias dos carregadores)

- Onde coloco essas caixas....

- E essa TV.

- O computador é no quarto ou na sala...

- Essa porta do lado da cozinha não abre, isso dá onde?

- Sei lá cara, deixa as coisas ai na cozinha e não fica bisbilhotando a casa dos outros, isso ai deve dar no porão.

Barulho de caminhão saindo.

[Fade Out]

3

Daniel entra em casa vindo da rua, lá fora é noite, em casa as luzes estão apagadas, liga o rádio e começa a tirar objetos das caixas e organizar moveis e coisas na sala. Depois passa a cozinha, música fica baixa quando se desloca para a cozinha. Arruma fogão, objetos na geladeira. A câmera passa várias vezes rápida pela porta que permanece trancada.

Daniel escuta sons do outro lado da outro, chega mais perto para escutar, mas os sons param. Tenta abrir a porta e não consegue. Abre as gavetas da pia e acha um molho de chaves velhas e antigas. Tenta abrir a porta com elas até que acha uma que serve. Abre a porta. Tudo escuro, ao caminhar pela luz que vem da cozinha esbarra em objetos no chão (máquina de escrever). Tenta achar o interruptor de luz mas não consegue. Volta para a cozinha acha uma vela e desce novamente. A luz da vela acha um interruptor e acende. Se vê no porão do apartamento cheio de coisas velhas, começa a mexer em algumas e explorar o porão. Se depara com outra porta, tenta abrir mas não consegue nem com o molho de chaves velhas. Sobe para a cozinha, apaga a vela e fecha a porta.

[Fade In]

(barulho de passos no escuro, clique no play do rádio (ou controle remoto), clique de luz acendendo)

Música do rádio durante a cena.

Música ?????????

Ao entrar na cozinha barulhos estranhos (passos, alguém correndo do outro lado da porta fechada)

Ao subir para a cozinha musica de fundo acaba.

[Fade Out]

4

Quarto de Daniel. Ele se mexendo na cama. Acorda de susto com um grito.

[Fade In]

Grito de porco morrendo.

[Fade Out]

5

Quarto de Daniel. Acorda com o despertador, Liga a TV as noticias do dia estão passando no jornal. Vai ao banheiro para escovar os dentes olha para o chão do corredor e vê uma mancha vermelha que vai do corredor a cozinha. Segue a mancha até a cozinha quando vê um porco morto todo aberto com sangue empoçado ao lado moscas por todos os lados, e cheiro de podridão. Daniel corre para o banheiro e vomita.

[Fade In]

Som do despertador.

Noticias na TV como fundo.

Ao vomitar e dar descarga [Fade out]

6

Locação Bar. Na cena Daniel com um grupo de amigos (3 homens e 2 mulheres).

Homem 01 Pede mais cerveja para o garçom.

Daniel despede-se de todos deixa o dinheiro em cima da mesa para as cervejas e quando está saindo do bar passa um caminhão cheio de porcos por ele.

[Fade In]

Daniel

-Porra meu! Vocês não sabem o que encontrei em casa hoje ao acordar.

Homem 01

- O que meu!

Daniel

- Cara vocês não vão acreditar se eu contar.

Mulher 01

- Conta de uma vez. Para com esse suspensinho todo, até parece que vai contar uma história de terror.

Todos dão gargalhadas.

Daniel sério.

- Vocês sabem que me mudei essa semana né?(todos acenam com a cabeça) Então, é um apartamento que fica no térreo e é bem antigo. No primeiro dia achei no porão um monte de coisas velhas.

Mulher 02

- Tipo o que?

Daniel

- Várias coisas: uma máquina de escrever velha, um monte de fotos antigas, uns trecos lá que nem sei para que servem, balanças de fero, umas “geringonzas “.

Homem 01

- Devem ser coisas do antigo dono.

Homem 03

- Lá em casa também encontrei várias coisas assim quando me mudei, os antigos donos até deixaram o sofá deles, um sofá cama tri bom.

Homem 02

- huahuahuauah, eu quando me mudei só tinham contas atrasadas (todos caem na gargalhada).

Daniel

- Deixa eu terminar a história nem chequei a contar o que eu queria. Então, achei no porão uma porta que não consigo abrir também. Essa manhã quando acordei percebi um rastro de sangue no corredor que dá na cozinha, quando cheguei lá achei um porco morto e fedendo.

(A cara de todos é de dúvida)

Mulher 02

- Ah meu, não vem com essa, duvido.

Daniel

- To falando sério, foi um trabalhão para tirar ele de lá.

Homem 02

- Que papinho estranho esse o seu cara.

Daniel

- Podem achar estranho mas é a verdade. Mas buenas vou me indo que está tarde. Até mais.

[Fade Out]

7

Quarto de Daniel, ele dorme tranquilamente quando acorda com um som de porco gritando. As luzes começam a piscar na casa toda.

[Fade In]

Grito de porco.

[Fade Out]

8

[Fade In]

Aparece nome do curta e créditos.

[Fade Out]

9.2.10

Borboletas no Estômago


Qual seu maior medo? Essa foi a primeira pergunta do psiquiatra de Joseph. Era a primeira sessão de analise dele, a empresa em que ele trabalhava havia pedido para todos os funcionários fazerem vários exames, inclusive um psicológico, com a desculpa de melhorar o padrão de qualidade do trabalho. Mas Joseph sabia que era apenas para demitir os que tinham “algum problema”. Sabendo disso Joseph mentiu.

Ele encontrava-se deitado no divã. Demorou em responder pensando em uma mentira cabível com sua situação atual. “Meu maior medo é que a paz e a sociedade em que vivemos acabe”, essa foi à mentira que Joseph contou o resto da sessão foi tranqüila com perguntas sobre sua vida, sua infância e adolescência. Se alguma vez tinha sido abusado sexualmente, se ele amava a mãe dele sexualmente falando, se o pai para ele era um herói.

Joseph saiu do consultório pensando em seus medos. Sempre tivera uma vida tranqüila e normal dentro dos padrões da sociedade, algumas frustrações amorosas, na escola, no trabalho, mas sempre as superou. Mas seu verdadeiro medo era alimentado por seriados, contos e filmes de ficção os quais depois da adolescência começou a não assistir mais. Cada vez que assistia um filme desses ficava sem dormir por quase uma semana ficando com surtos de insônia e com medo de qualquer sombra se movimentando ou barulho.

Seu maior medo era encontrar com alienígenas e descobrir que a sua vida não era nada apenas a imaginação de uma outra pessoa ou ser, apenas uma história de ficção, assim como naquele filme Matrix.

Chegou em casa abriu a geladeira e pegou o que tinha dentro dela: duas cervejas e um pedaço de pizza de dois dias atrás. Naquela noite tudo mudaria. Ele ainda não sabia por isso degustou sua pizza e cervejas tranquilamente. Assistiu a um programa sobre romances históricos de vampiros e um episodio de seu seriado favorito sobre uma família com vários problemas de relação.

No meio do seu sono sentiu algo dentro do seu ouvido. Não deu muita atenção aquela pequena irritação e voltou a dormir. No dia seguinte algo o incomodava: um ruído fraquinho dentro do ouvido esquerdo e uma coceira que provocava pequenos espasmos no corpo. Essa irritação chata continuou durante o decorrer do dia. De vez em quando parava dando um tempo de paz a ele.

Ao chegar em casa naquela noite limpou os ouvidos com cotonete e foi dormir sem comer nada. Ao acordar na manhã seguinte o mesmo barulho, a mesma sensação do dia anterior. No trabalho sua concentração diminuiu e algumas pessoas perceberam que havia algo de errado. Pela noite tinha consulta com o seu psiquiatra novamente. Falou para ele do barulho e da sensação de algo no seu ouvido, falou que estava escutando algo uma voz baixinha que não conseguia identificar o que queria dizer. O psiquiatra indicou alguns calmantes dizendo que podia ser o trabalho que estava exigindo muito dele e anotou ao lado de sua ficha “problemas de distúrbio de atenção e déficit de organização”.

Joseph não se conteve com a explicação. Sabia que algo estava errado, era o segundo dia consecutivo que estava com aquela sensação de algo dentro do seu ouvido. Em vez de ir para sua casa após a consulta foi para um Pub. Bebeu a noite toda para. A cada copo a voz e a irritação no ouvido esquerdo ia diminuindo, com o passar dos copos de uísque e gim tudo melhorou e a sensação passou. Conseguiu dormir melhor deitado no balcão do bar.

Acordou deitado no chão de sua casa, não sabia como tinha chegado até lá. Eram quase meio dia estava muito atrasado para o trabalho. Saio correndo de sua casa. roupas amarrotadas, despenteado e com bafo de álcool. Seus dias começaram a ser assim: Chegava ao trabalho atrasado, saia do trabalho mais cedo, ficava com uma irritação e coceira no ouvido por alguns minutos intensos e outros mais calmos o que às vezes provocava surtos de mal humor e irritação com os colegas de trabalho. Ao anoitecer ia para algum pub e ficava bebendo até perder-se em sonhos estranhos mais tranqüilos. Parou de ir ao psiquiatra, das dez sessões que tinha que fazer foi apenas em duas.

Tinham se passado vinte dias desde a primeira sensação de estranheza em seu ouvido esquerdo. Na noite do vigésimo dia ele decidiu fazer uma coisa radical para acabar de vez com aquilo. Joseph estava cansado de dormir bêbado e acordar bêbado. Na saída do trabalho comprou uma garrafa de uísque e foi para casa. Ao chegar em sua casa foi direto ao banheiro e deixou a banheira enchendo, foi a cozinha pegou uma faca velha e enferrujada mas que ainda era boa de corte em cima da pia que por sinal estava cheia de baratas e insetos desconhecidos (lembrou-se que fazia muito tempo que não limpava a casa). Ao entrar no banheiro o trancou e desligou a água da banheira quase cheia.

Entrou com roupa dentro da água. Pegou a faca e abriu o uísque tomando em goles grandes o conteúdo da garrafa. Na metade da garrafa já estava bêbado. Mergulhou cinco vezes dentro da banheira testando seu fôlego. Na sexta vez demorou-se um pouco ao subir novamente a superfície tinha engolido alguns bons goles de água. Pegou a garrafa de uísque pela metade e derramou-a em seu ouvido esquerdo.

Sentiu algo saindo de dentro de seu ouvido um ser pequeninho, do tamanho de um tesouro parecido com uma mariposa de luz, essas que ficam voando nas lâmpadas. O ser pequeninho caio na água tossindo e tentando respirar.

Joseph não pensou duas vezes pegou a faca e o ser pequeninho e o cortou ao meio, depois as metades em mais dois pedaços. Ao final da ação tinha oito pedaços do ser jazidos sobre a água os jogou para fora da banheira largou a faca e a garrafa que ainda estava em sua mão e adormeceu tranqüilo na banheira.

Elisandro Rodrigues


P.S: Esse conto nasceu depois de eu passar oito horas com uma borboletinha dentro de minha orelha. Não foi uma sensação agradavél, mas me rendeu boas gargalhadas.

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento