26.12.09

Daquilo que sobra quando a brasa apaga


O vento é brincalhão. Brinca com as folhas de árvores que voam até os céus e voltam ao chão novamente. Brinca com o cabelo dos passantes e dos viajantes. Brinca com as roupas nos varais, dançando ciranda e se abraçando nas roupas estendidas ao sol. Brinca com a água levando em ondas e mais ondas pensamentos e imagens refletidas nas águas e nas poças de chuva. Brincalhão assim brinca com o fogo, levanta labaredas, acende o fogo antes apagado. Na brasa encontra teimosia. Sopra, sopra, brinca de brisa, de vento forte. Mas as brasas são teimosas gostam de brincar com o vento, assim como brinca com o fogo e as pessoas. Brasas são resistentes ao acender-se e ao apagar-se.
As Brasas são apegadas ao querer delas, ao sentir delas, ao afeto delas por aquele não sabe se vai nem se vem. O vento não, o vento e decidido, sopra, brisa, venta, sacode, acalma, desacalma. E ele é assim, vem quietinho nas tardes de mormaço e faz um afago no nosso rosto, é assim que ele chega na brasa, de mansinho e a acende tornanado-a mais bela e bonita do que antes. Ele fica ali um pouquinho olhando admirando a boniteza da dança e depois vai soprar em outro lugar. E assim a brasa apaga - ou achamos que ela apaga, pois a teimosia dela persiste depois que o vento vai, ela fica lá quietinha até ele voltar e o sopro acontecer novamente.

Elisandro Rodrigues

P.S: Que nesse ano que se aproxima sejamos uma mistura da teimosia de Vento e Brasa.

23.12.09

Daquilo que não sei

Ando por aí olhando lugares e ambientes como quem anda tentando afogar a saudade numa imagem. Molho os pés nas águas salgadas da saudade a procura de uma brisa e do vento. Quem sabe o vôo seja permitido quando a leveza do corpo se tornar possível. Na teimosia que me permite os sonhos navego por ventos, por mares, por árvores, arco-íris e botões.
Nas sendas que me levam para aqui e acolá nada é certo. Apenas a fuga do que sufoca e do que nos desconstrói. Trilhar caminhos incertos de pedras que afundam com o pisar, da grama molhada com o choro da manhã, das nuvens macias onde cada pisar é um cair para outra nuvem.
Na arquitetura das surpresas um acordar-se para dentro no sonhar nas asas da procura embalados com o vento na noite acordo com sonhos intranqüilos. Nos fragmentos das noite sonho que sou outra pessoa, que vivo dentro de outra pessoa, vivendo uma vida que não é a minha. Acordo. Suado. Me toco. Me belisco. E percebo que eu nunca fui eu.

Elisandro Rodrigues

Entra[saí]da - Manoel de Barros

Distâncias somavam a gente para menos. Nossa morada estava tão perto do abandono que dava até para a gente pegar nele. Eu conversava bobagens profundas com sapos, com as águas e com as árvores. Meu avô abastecia a solidão. A natureza avançava nas minhas palavras tipo assim:

O dia está frondoso em borboletas. No amanhecer o sol põe glórias no meu olho. O cinzento da tarde me empobrece. E o rio encosta as margens na minha voz.

Essa fusão com a natureza tirava de mim a liberdade de pensar. Eu queria que as garças me sonhassem. Eu queria que as palavras me gorjeassem. Então comecei a fazer desenhos verbais de imagens. Me dei bem.

[...]

1)É nos loucos que grassam luarais; 2)Eu queria crescer pra passarinho; 3) Sapo é um pedaço de chão que pula; 4) Poesia é a infância da língua. Sei que os meus desenhos verbais nada significam. Nada. Mas se o nada desaparecer a poesia acaba. Eu sei. Sobre o nada eu tenho profundidades.

Siente como Sopla el Viento